"Olha, o povo quer ganhar dinheiro. O que nós podemos fazer se o
povo quer fazer seus camarotes e vender?"
Irreverente e com muita simpatia. Foi desta forma que Gil
recebeu a imprensa para falar sobre o seu Carnaval 2003. A cantora
reserva grande novidade para o desfile de terça (04), do bloco Beijo.
A pedido da artista, o carnavalesco Milton Cunha criou um carro que
será uma enorme baiana de acarajé com um grande tabuleiro na cabeça.
Seu novo CD também traz surpresas. Estas e outras novidades, Gil conta
nesta conversa com o ZiG. Confira!
Eduardo Vieira (eduardoavieira@atarde.com.br)
ZiG - O que podemos esperar de Gil no Carnaval 2003?
Gil - Eu gosto de fazer mudanças, de criar. Comecei a
perceber que no Carnaval de Salvador nem sempre acontece algo de novo.
Os cantores passam, cantam suas músicas... é legal, mas acho que
precisa ter algo cênico. O público precisa disso. Aí comecei a trazer
novidades para a avenida. Este ano eu passei um bom tempo no Rio de
Janeiro, fiquei quatro meses morando lá e fazendo a produção do meu
novo CD. Eu já sabia que o tema do Carnaval seria a baiana de acarajé,
então tive a idéia de entrar em um carro alegórico, juntando o
Carnaval de Salvador com elementos do Carnaval do Rio. Porque o Rio de
Janeiro sempre nos prestigia. Toda escola de samba tem a ala das
baianas. Conversei com Milton Cunha, da escola Unidos da Tijuca e
bolamos este carro.
ZiG - Como será este carro alegórico?
Gil - O carro será uma enorme baiana de acarajé e a depender
do local pode chegar a seis metros de altura. Eu serei um dos quitutes
que esta linda baiana trará no seu tabuleiro. Serei um delicioso
acarajé (risos). Eu queria juntar a baianidade com o espetáculo que o
Rio faz. Estou fazendo este trabalho por amor, porque eu gosto de ver
o folião feliz. Eu gostaria que o mundo todo fosse feliz. Toda esta
festa será na terça-feira de Carnaval, no Campo Grande. Além disso,
vou puxar o Alô Inter, no sábado, na Barra, e o Beijo, também, no
domingo e na segunda.
ZiG - O Carnaval de Salvador vive hoje uma explosão de
camarotes, de artistas e de empresas particulares. O que você acha
desta tendência e tem a intenção de ter seu próprio camarote?
Gil - Olha, o povo quer ganhar dinheiro. O que nós podemos
fazer se o povo quer fazer seus camarotes e vender? Tem gente que
escolhe o camarote para passar o Carnaval. Eu acho que tem espaço para
tudo, para os camarotes, os blocos, a pipoca, o Carnaval nosso é muito
livre. Todos os camarotes e blocos estão lotados e as ruas também.
Agora eu não penso, neste momento, em montar o meu camarote. Eu hoje
quero trabalhar mesmo o meu bloco. Cada um é livre para fazer o que
quiser.
ZiG - Alguns artistas, como Daniela Mercury e Gilberto Gil,
desenvolvem um trabalho voltado para o folião pipoca. O que acha
destas iniciativas?
Gil - Eu acho bacana. Um dia, se Deus quiser, eu quero fazer
isso. Deve ser ótimo o povo todo atrás do trio pulando. Depois que eu
termino o circuito eu toco mais uma hora para todo mundo e isso me dá
muita alegria. Acho ótima a iniciativa deles, é sempre bom inovar.
Isto é muito importante para o artista.
ZiG - Fale um pouco do seu mais recente CD, Movimento. O que
difere este álbum dos demais?
Gil - Eu misturei um pouco da Bahia com a música eletrônica,
que está em alta no mundo inteiro. Fiz todas as bases do disco aqui.
Depois fui para o Rio de Janeiro. Comecei a misturar os sons e chegou
no resultado que eu queria. O disco está bem eclético e com a minha
cara, porque eu amo cantar tudo. Não gosto muito de rótulos. A minha
vida começou no bar e eu canto tudo mesmo.
ZiG - Você gravou um antigo sucesso do Acordes Verdes. É
importante este resgate?
Gil - Claro. Agora, eu trouxe esta canção para o jovem. Ela
tem 20 anos e eu fiz uma mistura, como a Bahia faz com a sua música, e
fiz modificações no bumbo e na guitarra. Eu acho Luís (Caldas) um
artista completo. Além disso, foi o primeiro artista a puxar o bloco
Beijo. É uma homenagem também.
ZiG - Como está o mercado de axé fora da Bahia? O ritmo, na sua
opinião passa por alguma crise?
Gil - Olha, eu não paro de fazer show. Todos nós fazemos
shows lotados fora da Bahia. Nossa música é muito aceita e toca pra
caramba. O que eu acho é que o mercado, em todos os sentidos, está
difícil. O país está passando por um período complicado.
ZiG - Já está preparada para a correria do Carnaval?
Gil - Já está chegando (risos). É uma correria sim, mas
quando entro no trio minha bateria se renova. O cansaço some naquele
momento. Procuro não me preocupar muito com o amanhã, penso no hoje.
Eu fico muito feliz neste momento, muito mesmo. Minha mãe fala que eu
tenho uma criança muito forte dentro de mim. Eu tive uma infância
muito feliz, andei na chuva, na lama. Foi ótimo. É o meu trabalho, que
eu escolhi e que eu amo.
Fotos: Patrícia Moraes