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"Bate lata" foi considerada a melhor composição de 2001, mas foi a cantora Gil quem recebeu a premiação O teatro está lotado. Cantores, músicos, compositores, produtores culturais e jornalistas reunidos. É a noite de premiação dos representantes da música carnavalesca baiana, o Troféu Dodô e Osmar. Fábio, Gal e Ivan esperam, ansiosos, pelo anúncio da melhor composição do Carnaval 2001, afinal de contas, os três são os autores de um dos maiores sucessos daquele ano, a música Bate lata, interpretada pela cantora Gil. O anúncio de vitória veio com alegria, mas também com surpresa. Quem subiu ao palco para receber o prêmio não foram eles, os criadores da obra, mas sua intérprete, a cantora Gil. "A gente ficou sentido. Todo mundo ficava perguntando: e aí, vocês fizeram a melhor música e não ganharam nada? Cadê o troféu?", contam Fábio Nolasco e Gal Sales, dois dos autores da canção, ao lado de Ivan Brasil. "Não queremos condenar ela (Gil), porque havia uma organização por trás e sabiam que eram três compositores. Então, deveriam ter providenciado três troféus", refletem, enquanto se recordam do dia em que fizeram a música. "Gal estava em casa, no bairro de Santa Cruz, cozinhando, e a gente foi juntando os pedaços da canção". Procurada várias vezes pela reportagem do Correio Repórter, a cantora Gil não pôde receber a equipe por conta da agenda sempre lotada no período do Carnaval. Gravador à mão, a inspiração dos três foi tomando a forma de uma música que, eles nem imaginavam, seria cantada por tantos foliões de Carnaval. "Era um menino tocador, que dispensou o agogô, e o tambor pra tocar lata (...) Quer aprender, pegue uma latinha e bate uma na outra. Segure o reggae, não sossegue, se entregue a essa viagem louca". Da mesma forma que tantos compositores baianos, eles acompanharam, como que na penumbra, o sucesso de sua música. E, como não poderia deixar de ser, guardam no coração os escassos momentos de reconhecimento. Fábio nunca vai esquecer daquele sábado de Carnaval em que foi convidado a subir no trio elétrico da banda As Meninas, em frente ao Farol da Barra, e Carla Cristina cantou Bate lata. Antes, a cantora fez questão de falar que ele era o compositor. "Você vê o povo cantar, responder, bater na palma da mão. Você olha e não acredita naquele mar de gente, aquela multidão, em coro, cantando uma obra que você fez. Bicho, você se emociona, eu chorei", lembra Nolasco, emocionado. Foi em busca dessa mesma emoção que o compositor Alexandre Peixe abandonou o curso de medicina na Universidade Federal da Bahia, em 1993. Começou a se dedicar a criar canções. No currículo, traz a primeira música de trabalho da carreira solo de Ivete Sangalo, Tá tudo bem, que depois virou tema de propaganda de uma companhia telefônica, e com a qual foi premiado com o Troféu Caymmi, em 99. Artistas e grupos como Ricardo Chaves, Asa de Águia, Cheiro de Amor, Pimenta Nativa e É o Tchan gravaram suas criações. Também são dele as músicas Nanaê, Quero Chiclete e Voa voa (em parceria com Berto Garrido), todas sucessos do Chiclete com Banana. Apesar de suas músicas terem alcançado o pódio no Carnaval baiano, estando entre as mais tocadas nas rádios, Alexandre nunca sentiu o sabor do sucesso. Já tentou montar uma banda e hoje produz o grupo os Dez Compromissados. Foi o vocalista do Chiclete, Bell Marques, o responsável por um dos momentos mais gratificantes da carreira de Alexandre Peixe. Em plena passarela do Carnaval, no Campo Grande, pediu uma salva de palmas para os autores de Voa Voa, que assistiam, naquele momento, à passagem do bloco. Nada mal, pra quem costuma encarar olhares e risinhos de desconfiança quando algum de seus amigos resolve "revelar", em algum barzinho, que é ele o autor da música que está tocando. "Normalmente, as pessoas não acreditam", confirma Alexandre, sem esconder que ainda hoje sente um arrepio ao ouvir a multidão repetindo seus versos. "Você pensa que se acostuma, mas sempre se emociona", afirma. Exceção à regra O perfil de Alexandre Peixe, branco e de classe média, é uma exceção diante da grande maioria dos compositores que hoje fazem música na Bahia. A constatação está no projeto de pesquisa Auditibilidade e visibilidade da alma musical baiana - catalogação dos criadores da música baiana, desenvolvido há dois anos pelo professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, Antonio Jorge Godi e pelo compositor Jorge Papapá. "Noventa por cento dos compositores baianos são negros e não têm visibilidade", afirmam. Além disso, muitos vivem em bairros de baixa renda e precisam exercer outras atividades profissionais, que nada têm a ver com o dom de compor, para sobreviver. "Alguns não são alfabetizados, mas isso não quer dizer que eles não sejam inteligentes", diz Papapá. Os dois pesquisadores fazem uma reflexão sobre o "descaso e desconhecimento" tanto por parte da academia quanto do grande público, em relação aos criadores da "música baiana" contemporânea. Para eles, é preciso mostrar os bastidores, os meios de produção e distribuição dessa cena musical. "É preciso reconhecer que os compositores são os principais responsáveis pela matéria-prima que proporciona o movimento milionário desse mercado inusitado. Daí, acreditarmos que, para além do sucesso de suas músicas, eles merecem ganhar visibilidade e reconhecimento histórico", explicam. Descaso O poder de uma música de sucesso é tamanho que ele pode erguer uma banda, fazer com que ela venda shows, abrir suas portas. "Não adianta uma banda excelente, se não tiver música. Então, os compositores têm uma importância fundamental", afirma o advogado autoralista Rodrigo Moraes, um dos poucos estudiosos, aqui na Bahia, dessa nova especialização do direito. "A banda vende um milhão de discos e ele (o compositor) passa na rua e ninguém sabe", compara. Um dos exemplos desse descaso com o compositor é o descumprimento à lei municipal que prevê que, além do nome do cantor ou grupo, as rádios divulguem o nome do compositor de cada música. "Considero o não cumprimento dessa lei um desrespeito ao autor, já que a matéria-prima do rádio é a música", afirma Perfilino Neto. Rodrigo Moraes alerta que, além da lei municipal, a Lei Federal 9.610, de 1998, sobre direitos autorais, também traz essa exigência. "O problema é que a legislação municipal, nesse caso, não traz nenhuma punição para quem deixar de cumpri-la", explica. Entretanto, a empresa de radiodifusão que deixar de cumprir a lei federal pode ser obrigada a mencionar os nomes dos compositores "no mesmo horário em que tiver ocorrido a infração, por três dias consecutivos". Todas essas questões estão englobadas no campo de estudo relativamente novo do direito autoral. Aqui no Brasil, essas discussões começaram no início do século XX tendo à frente uma das grandes compositoras do país: ninguém menos que Chiquinha Gonzaga.
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Última atualização:
20/04/2004 14:12